Doki Livros | Allegro em Hip-Hop, Babi Dewet

Uma bailarina e um violinista, não parece um par perfeito? Quando li a sinopse deste livro há dois anos, na época do lançamento, fiquei imaginando vários fanarts com ele tocando violino e ela dançando. De lá para cá, li e reli esta história algumas vezes e finalmente é hora de escrever uma resenha para esses personagens.


O segundo volume da série Cidade da Música traz a história de Camila e Vitor, ela uma bailarina focada exclusivamente em ser a melhor possível, sem tempo para garotos ou festas, ele um violinista meio nerd com um gosto apurado para música clássica e hip hop. Mas estas são apenas linhas gerais da trama, quando realmente começamos a ler este livro, percebemos que Mila sofre de ansiedade e com a pressão de conseguir ser solista e manter essa posição com tantas outras bailarinas competindo para seu lugar, além de sentir a necessidade de alcançar os padrões de perfeição esperados por sua mãe rígida. Com sua personalidade mais livre, Vitor é a melhor pessoa que Mila poderia encontrar na Academia Margareth Vilela e quando a amizade entre os dois ganha força, eles percebem que o sentimento que nutrem um pelo outro é mais forte do que esperado - na verdade, Vitor já gostava de Camila, mas não deixa de ser uma surpresa o quanto o sentimento vai expandindo ao longo da trama.

Allegro em Hip-Hop acompanha a perspectiva de Mila e Vitor, então na narrativa temos duas personalidades bastante diferentes, o que fica muito transparente no tom que as cenas ganham quando lemos o ponto de vista de um ou de outro. Este detalhe é o que realmente me ganhou na trama. Enquanto as cenas pelo olhar de Mila são mais tensas, as cenas com o olhar de Vitor tendem a ser mais doces, o que reflete também a personalidade desses dois personagens e faz dessa dupla uma combinação balanceada. Há uma certa imaturidade nos dois que é característica da falta de experiência que eles mostram ao longo da trama, mesmo já tendo completado seus 18 anos, e durante a leitura tive a impressão de que esse aspecto não ajuda tanto na construção dos personagens, ainda que adicione mais uma camada em suas ações.

Vitor queria ser alguém que pudesse estar à disposição de Mila para o resto da vida, mesmo que fosse para segurar seu guarda-chuva enquanto estivesse chovendo. Esse era o pensamento de alguém sem amor próprio, mas, como ele imaginava, romântico. Mal sabia ele que isso quase sempre significava a mesma coisa. (p. 88)

Através da voz da personagem feminina a autora conseguiu passar os sentimentos, medos e angústias de uma pessoa com ansiedade e tratou do tema de forma delicada e com o aprofundamento certo, de acordo com o que é proposto pelo enredo - todo o desenvolvimento de Mila é feito ao redor desse lidar com a ansiedade e com a necessidade de diminuir um pouco o nível da rigidez com que foi criada. Por ser uma bailarina e estar em constante pressão para alcançar a perfeição nos gestos, nos movimentos e no corpo, a autora teve a abertura para tratar de temas que permeiam a vida de muitas pessoas, adolescentes ou não, como a ansiedade, a questão do peso, a rivalidade no trabalho etc. Li, por aí, algumas pessoas apontando que a história era muito adolescente e por isso não conseguiram se reconhecer na personagem protagonista, mas me parece que, nesses casos, essas pessoas simplesmente não conseguiram identificar certos padrões de comportamento que foram retratados - não são apenas adolescentes que têm que lidar com colegas de classe ou de trabalho que são mesquinhas como uma forma de autoproteção e autoafirmação, não são apenas adolescentes que precisam lidar com as pressões das expectativas de familiares e professores; é tudo uma questão de levar o exemplo para outras esferas e contextos.

O romance entre Mila e Vitor é construído de forma calma, ainda que ele goste dela desde o começo, consegue perceber e entender que ela mais precisa de apoio e companheirismo do que de um fã que quer ser seu namorado. Os melhores amigos dos dois, Clara e Sérgio, são dois personagens que gostaria de ver um pouco mais em seu desenvolvimento, pois além de serem engraçados e boas misturas para as personalidades dos personagens principais, têm arcos narrativos que me despertaram a atenção - Clara, com sua energia brilhante e pouco medo de dizer e fazer o que quer, é um contraste interessante para o jeito mais sério e contido de Mila.

A escrita da autora é, como sempre, muito fluída e a forma como constrói cenas e espaços nos leva para o ambiente da Academia Margareth Vilela sem dificuldade. Cidade da Música tem se mostrado uma série muito importante na abordagem de problemas e temas tão necessários de se discutir, ainda que suas histórias não tratem profundamente desses temas, como já apontei na resenha do volume anterior, abrir a discussão é sempre o primeiro passo para que quem está lidando com o que é retratado consiga ver que é possível ter ajuda e encontrar, em certa medida, paz para continuar vivendo. Allego em Hip-Hop, até agora, é o livro da série com personagens mais reais e com dores mais próximas (de mim) e estou curiosa para saber o que o próximo volume trará.

Até breve! ♡

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